Sobre como algumas coisas são e não sobre como elas poderiam ser

9.9.15


Certa vez se encontraram no supermercado. Era uma quinta-feira, 23h de um dia no meio de maio. Típico dia aleatório que nada além de acasos podiam surgir. 

Ela o reconheceu primeiro, ainda de costas, parado em frente a geladeira de verduras, olhando contemplativo para a prateleira. Reconheceria os cabelos laranja em qualquer lugar ou circunstância - até prostrado diante da geladeira de verduras. Analisou a possibilidade de passar direto para o queijo brie e voltar mais tarde para pegar o maço de rúculas, quando ele não estivesse mais ali. 

Sua avó sempre dizia que nem tudo que reluz, é ouro. Ela costumava crer nesse ditado até ver o anel dourado indiscretamente grande que brilhava no dedo anelar direito dele; aí, ela teve certeza que era ouro. Então, o queijo brie que esperasse, a rúcula havia se tornado uma prioridade na vida dela.

Respirou fundo e marchou levemente tremulante até a geladeira de verduras. 

- Cacete, o que é agrião nessa merda? – dizia ele enquanto remexia os pacotinhos verdes na prateleira.

- Essa é a chicória. – ela indicou levantando levemente as sobrancelhas - O agrião tem as folhas menores e mais fininhas. - ela disse, sem quase insegurança na voz. 

"SÓ HOJE: ALFACE HIDROPÔNICA POR R$ 1,99/PÉ" foi tudo que ela conseguiu ver quando ele se virou para agradecer a especialista em hortaliças que acabara de salvar a salada dele.

Ele não reconheceu a voz da razão botânica de primeira; precisou que seu cérebro procurasse avidamente por uma memória enterrada com muito custo. Alguns milésimos de segundo e ele tinha certeza absoluta de que era essa a mesma voz que havia lhe ensinado a diferença entre Cabernet Sauvignon, Malbec e Merlot – porque ele sempre preferiu cerveja.

A curiosidade em ilustrar a voz que agora ecoava em seus ouvidos foi irresistível; virou-se para encarar o inevitável. 

- Ow, você! Que coincidência! – e colocou a chicória de volta na prateleira de cima da geladeira.

- É, pois é. – e fitou os cadarços dos próprios tênis.

Silêncio. 

- Mas e ai, como você tá? - e se afastou da geladeira.

- Bem, tô bem. – quis dizer “ótima”, mas preferiu evitar a presunção. – e você? Como estão as coisas?

Ela quis estar de volta na sessão do brie e esquecer que perguntou sobre a vida dele; ela queria saber, mas não queria.

Se não fosse o maldito agrião, ele não estaria ali; estaria em casa assistindo ao show do Rolling Stones - aquele dirigido pelo Scorsese. Ele pondera mentir, não sente vontade em dizer a ela o que realmente está acontecendo na vida dele, mas logo repara que ela não tira os olhos da aliança no dedo dele. Ele sempre odiou alianças, ela deve estar pensando. Ele sempre repudiou esse tipo de demonstração pública de estado civil, ele lembra.

Ele sempre odiou agrião. E ela sempre soube disso.

- Hum, bem. Tô num trabalho novo, bem bacana, e-commerce, sabe?

- Uhum, bacana mesmo. – não era isso que ela queria saber.

- E o mestrado? – se encosta na geladeira de novo.

- Larguei. – e dá de ombros.

- Ué, por quê? – cruza os braços.

- ah, sei lá, sem tempo. Os horários são impossíveis e as coisas na agência tão cada vez mais corridas. – lê o cartaz "SÓ HOJE: ALFACE HIDROPÔNICA POR R$ 1,99/PÉ" pela quinta vez.

- ah, é! Tavinho me contou que tu é gerente de atendimento de umas contas picudas. Parabéns, meu!

Ela enrubesce, mas inspira o ar com orgulho das próprias conquistas.

- Consigo bem imaginar o Otávio contando exatamente nesses termos. – e riu – valeu, é responsabilidade pra caramba, mas tá bacana.

- Mágina, cê merece – e se sente desconfortável com o que saiu pela boca espontaneamente.

Ela olha para a porta, esperando um portal de teletransporte; ele olha o relógio casualmente.

São, enfim, conhecidos que se desconheceram de propósito.

O telefone toca. Os dois alcançam seus respectivos celulares ao mesmo tempo. O dela continua apagado. O dele tem uma foto desconcertante de um casal visivelmente feliz brilhando na tela, enquanto vibra incessantemente.

Oi – enfia uma mão no bolso e olha pro chão - aham, tô só pegando o agrião. É – sei. Não, eu sei. Tá, pode deixar. Ok. Dez minutos tô aí, tá. Beijo – e olha pra ela - ...também.

Parece encabulado. Parece deslocado do lugar-comum que ela se lembrava dele. Uma versão que diz que também ama ao final do telefonema.

Nunca disseram ‘eu te amo’ um para o outro.

- Era a Mon- hum, é, a minha noiva. – e coça a nuca.

- Noiva? Olha só! – finalmente a confirmação que ela esperava.

- É, aparentemente, vou me casar em julho. – e olha a tela do celular como quem calcula os dias até o casamento.

Quem casa em julho? É frio, seco. Tempo sempre cinza. Julho: dois meses pra frente. Meu deus, quando é que a vida mudou o rumo tão rapidamente?

- uau! Parabéns! – e se esforça para dar o melhor sorriso.

- valeu. – e retribui com o melhor sorriso.

Ele não parece animado, pensa ela.

Ele está tentando parecer animado, mas não sabe como fazê-lo.

Ela passa por ele, pega o maço de rúculas para ela e vira para voltar ao carrinho. Mas lembra de outra coisa. Volta a geladeira, se vira para ele e lhe entrega um chumaço verde.

- Toma, olha, esse maço de agrião tá bem bonito. – e abre um sorriso espontâneo, enorme.

- Ah, nossa, salvou minha vida! – e retribui um sorriso espalhado, espontâneo e gentil [como ela lembrava].

Ficam se olhando, encabulados, no meio da sessão de verduras. Um misto de gratidão e dúvida – e se eles tivessem dado certo.

- Bom, eu tenho que ir. Vou receber uns amigos em casa hoje. – mas o olha nos olhos agora, sem desculpas.

- Claro, eu também preciso ir. Então...a gente se vê por aí? – e enfia uma mão no bolso, segurando o maço de agrião com a direita-da-aliança.

- É, talvez. Viu, parabéns pelo casório. Muitas felicidades pra vocês! – e dá uma piscadinha leve, sentindo-se corajosa.

- Cê não vai fazer nenhuma piada sobre a mudança drástica no meu nível de comprometimento ou algo assim? – e faz careta engraçada.

- Não, os meninos já devem ter feito isso por mim. – e ri da própria audácia.

- Ah, isso sem dúvida. Tavinho sempre me conta sobre você, acho que ele ainda acredita que você era melhor pra mim. – fica sério de repente.

- Nah, acho que você fez suas escolhas e eu fiz as minhas, só não era pra ser, sabe? Além do mais, o que o Otávio sabe sobre relacionamentos?

- Você tem um ponto aí. Mas, brigado pelos votos, mesmo. Poxa, tô feliz de saber que seus planos tão se concretizando também. Não desiste do mestrado não, cê gostava tanto. – e fica encabulado, vermelho da cor dos cabelos.

Ela se limita a sorrir, um sorriso macio que não chega a mostrar os dentes, daqueles que ela dava para ele quando concordava com o que ele tinha a dizer; como quando ele preferiu ir para Havana em vez de Paris, e eles amaram.

Ela segue, então, para a sessão de queijos em busca do brie. E ele, com o agrião em mãos segue na direção oposta, direto para os caixas.

Ele ainda para pra vê-la ir. Os cabelos acima dos ombros deslizam de um lado ao outro enquanto ela desaparece entre os cereais. Ele então filosofa baixinho sobre não saber se o que é deveria ser, mas mesmo assim aceita.

QUE TAL MAIS UM?

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