2.7.09

Antes que adormeça,
Antes que eu me esqueça,
Antes que padeça,
Bem antes que amanheça,
Deixe-me a ler
Deixe que meus pensamentos se entrelaçem aos já escritos
e assim burlar o medo de estar sozinha.

29.6.09

Antes de tudo que não via. Agora sem mais pudor reclamava da vida sem saber por onde ir. Querendo reviver tudo que havia perdido na vida que passara sem ser descoberta. Antes de tudo a ser visto. Antes mesmo de nascer. Um pouco depois de tudo. Antes mesmo de morrer.

17.6.09

Sabedoria

Sábia a mente que se deixa esquecer do que mais lhe aborrece.
Sábios os feitos feitos por vontade e projeção.
Sábias palavras ao vento que caem e germinam no chão do lirismo.
Sábios que escutam mais do que falam e sabem mais do que dizem.
Sábios e sãos aqueles que mesmo sem querer são maestros do tempo
e sabem dar tom ao passar do tempo tecendo rugas e expressões.
Sábio é o tempo, que passa, esquece e nunca volta atrás.

25.5.09

Mostrando os dentes

Faltam palavras escritas.
Faltam as faladas,
caladas no canto.
Canto desafinando o tom,
desafiando o som que se propaga.

Ando mais eu
e menos o que não quero ser,
ando tomando caminhos e rumos sinceros.
Ando mostrando os dentes até pra quem não merece,
mas não me apetece enfim, saber se é bom ou ruim o que sente o indivíduo.

Tenho mais vida
e menos rancor.
Tenho mais cor
e menos tédio.

Penso mais do que achava que podia,
penso menos que a loucura.
Penso mais que a sanidade.
Ansiedade ainda bate,
mas bem mais de felicidade
do que de dias mal dormidos.

6.5.09

Eu gostaria de todos os dias poder olhar para fora e ver mais do que um céu azul.
Eu gostaria que nem todos os pensamentos fossem mais do que pensamentos em certa hora do dia.
Eu gostaria de não exigir tantos “gostaria” de tantas formas diferentes.
Mas o que eu gostaria mesmo é que tudo saísse exatamente do jeito que eu gostaria.

2.4.09

Brainstorm II

E de repente tudo o que lhe restava era fugir.
E de repente tudo ficou tão claro quanto a água que escorria por suas mãos. Era a hora de quebrar vínculos, laços ou até braços se fosse assim preciso.
Tudo o que lhe impedia de seguir agora já não fazia tanto sentido, não tinha tanta importância. Toda uma breve vida disperdiçada por uma preocupação exagerada que não podia impedir que o tempo parasse ou regredisse, que não impedia de se machucar mais do que ontem, menos que amanhã.
É talvez a última boa chance de ser alguém por si só, uma chance de ser feliz por conta.
Já não lhe agradava mais fantasiar vidas que talvez nunca existirão. Imaginar destinos que não davam mais tempo de acontecer. Já não lhe satisfazia viver voando entre visões de sucessos nunca tentados.
E o desespero logo tomou seu interior como se fosse se afogar na própria angústia. A constatação do erro era tão óbvia e clara que sentia a estupidez bater-lhe à porta.
A verdade é que mal sabia se a felicidade havia lhe batido à porta outrora. A verdade é que tudo lhe escorria pelos dedos que mal via para controlá-los, estavam envoltos de fuligem.
O vento lhe pareceu agradavelmente delicioso de se provar. Cheiro da liberdade mal administrada, mal vivida. Das tentativas mal intencionadas de pessoas muito mal intencionadas em lhe fazer feliz. Tudo o que queriam era tripudiar em cima da derrota para assim triunfarem por seus próprios méritos. Não podemos culpá-los, somos todos assim. Uns mais que outros.
Correr lhe parecia plausível. Só a si parecia certo. Correr não! Voar! Voar lhe parecia mais rápido e indolor. Voar para o mais longe que conseguisse.
Mais do que querer, precisava. Era o ar que procurava a tanto mas sempre que tentava encher os pulmões era tudo poeira que lhe embaçava a visão e cortava os pulmões como se fossem facas.
A visão do sol e o céu azul lhe encheram o estômago de expectativa. Sentiu fome.
Parou. Fechou a torneira e retornou ao quarto.
Olhou para o chão e os pés ainda estavam lá, grudados na realidade mórbida da cidade cinza. Sabia o que precisava, mas nem por isso estava tudo resolvido.

8.3.09

O vazio do amor

Entraram no vagão. Dois. De mãos dadas. Homem e mulher. Menino e mulher.
Ele aparentava ter não mais que vinte anos, carregava, com o fulgor da idade e o desejo que os hormônios lhe proporcionavam, sua companheira.
Ela, já experiente. Aparentava ter passado dos quarenta. Pensei que eram filho e mãe. Ledo engano. Eram namorados e apaixonados, de sua forma, claro, meio desajeitada e tímida da parte dela diante da situação a qual estava exposta para todos no metrô. Ele a agarrava e a beijava como se não houvesse amanhã. Deixava que todos vissem a que veio.
Tive a impressão de mãe e filho mais uma vez. Apesar de estarem se beijando na boca, ela parecia olhá-lo com ternura. Havia certo tom de deboche em seu olhar terno. Talvez ela já soubesse o quão imaturo e inexperiente seu companheiro era, o que dava para notar de longe, já que usava uma daquelas roupas tento-ser-rebelde-mas-mamãe-comprou-minha-roupa, não que isso seja algo ruim, mas ela sabia que aquilo não passava de uma fase. Ele logo começaria a trabalhar, enquanto ela estaria se aposentando. Ele querendo sair. Ela querendo ficar. Ele com vergonha de levar a namorada-mãe aos churrascos de amigos. Ela com vergonha de apresentar seu peguei-para-criar para as amigas do bairro. Enfim, já havia começado sabendo que ia acabar, aliás tudo tem um fim, desculpem o clichê, mas é verdade. Nem o amor eterno é eterno. Você por um acaso sabe o que tem depois daí? E se é que tem...
Voltando ao casal. Ele sentia-se grande e a cobria por inteiro com seu orgulho e auto-afirmação. Ela ria.
Ele de costas para a porta abraçava uma mulher que olhava para o vazio, para o inexistente, não fazia idéia de que talvez, esse vazio que sua companheira olhava, fosse o vazio interno que sentia e que queria que fosse preenchido, por isso buscava algo no ar. Não encontraria ali, com toda a certeza.
Ele poderia até ser feliz, mas para ele era apenas a conquista. Eu sentia, eu via nele a satisfação de mostrar a todos naquele vagão que ele conseguira o que queria com sua ingenuidade de moleque. Finalmente podia se gabar. Provavelmente já havia tomado alguns foras de garotas da sua idade e agora poderia triunfar sobre as mesmas dizendo: “está vendo como eu posso? Aqui estou eu! Olhe para mim e minha conquista!”
O trem parou na minha estação, desci, olhei novamente para o vagão enquanto subia as escadas rolantes. Não mais os vi. Não sei o que houve nem como está.
Talvez eram só mãe e filho, mundo moderno.