Retratos de Família

12.5.14


Posiciona a câmera em cima da mesa de centro. “Ligou o timer?”, ela olha para ele com olhos de desafio, “liguei”. Ele se ajeita no sofá, “pra quanto?”. Ela revira os olhos “pra 15 segundos, pai”.  Ele pondera “e dá?”. Ela ri, sem graça, “claro, né?”.

Enquanto observa ela calcular a distância, arrumar o ângulo e testar a luz, ele esbraveja silenciosamente com o tempo que passou, assim, com tanta pressa. Queria ter levado ela mais ao colégio. Como era o nome da professora do primário que ela gostava tanto? Ela foi a Narizinho ou a Pequena Sereia na peça do Pré-III?

Ele olha para as tatuagens que ela carrega nos braços e sorri, sozinho. No fim das contas, ela fez boas escolhas, tem bom gosto; mesmo ele ralhando contra as decisões permanentes na pele dela. As primeiras unhas vermelhas já indicavam que ela seria muito mais teimosa do que ele imaginara; puxou a mãe.

Morreu de ciúmes dos namorados que ela trouxe para casa; ninguém era bom o bastante. Ninguém nunca será bom o bastante para ela e o universo estonteante que ela construiu para si. A verdade é que ele sempre foi um coadjuvante nas decisões dela. Todos aqueles detalhes de uma transição infanto-juvenil passaram pretensiosamente despercebidos. O fato é que ele tinha medo de querer saber, de compreender tudo o que ela estava passando. Como a sua pequena poderia estar beijando na boca? Quando é que o grudinho do papai havia crescido o bastante para estar transando com um marginalzinho qualquer?

Ouve, ao fundo, ela ralhar com alguém. Ela tem uma dureza necessária para ser respeitada. E lembra-se da coragem que ela adquiriu desde muito nova, uma coragem de enfrentar a vida como ela é. Sempre pedia para ele apagar a luz, mesmo ainda tendo medo do escuro, só para não se dar por vencida, só para dizer que ela era maior que o escuro. Certa vez, com só 7 anos, após perder a vó, ela falou para ele parar de chorar porque a vovó havia se desprendido da vida material e estava sorrindo lá do infinito, onde as coisas não são coisas, e todas as pessoas são estrelas. Naquele momento, aquelas horas que ela ficara submersa atrás dos livros do Ziraldo foram compreendidas.

Desde o instante em que ela empunhou uma câmera pela primeira vez, ele sabia que ela nascera para aquilo. Tentou desviá-la, Direito é um bom curso, e Medicina? O pai banca o cursinho! Hum, Biologia? Economia? Pedagogia? Odontologia é bacana, filha, você tem dentes bons. E tudo o que ouvia era não, pai; eu quero Fotografia. Ele tentou de todas as formas tirá-la do passo que ele havia seguido. Já não sabia se era ciúmes de sua Canon ou se era o medo paralisante de ela se jogar demais na vida, de se desprender tanto assim dele, de sair pela porta da frente e ligar pra ele lá da Chechênia dizendo, pai, fotografei o epicentro de um conflito hoje; eram bombas e tiros, gente ferida pra todo lado! Ah, meu deus, como ele sofreu! E sofre ainda, cada vez que ela sai de casa para registrar a vida como ela é, nua e crua; como ela sempre gostou de enxerga-la.

Ela recusa a cerveja que o primo oferece e ele franze o cenho, desde quando ela recusa um bom copo de cerveja gelada? E percebe o quanto ele não sabe sobre ela. O que ela faz quando está em casa? Ela e o marido são um casal feliz? Harmonioso? Ela está feliz? Ela...”pai?”, a bolha estoura, “ahn?”, ela olha para ele com estranhamento, “parece que desaprendeu a fotografar, pai! Nem olhou pra câmera...vamos tentar de novo, gente?”. Ele olha pra ela mais uma vez, estuda seus traços, seu jeito. Percebe um semblante sereno e lembra-se de ter visto essa expressão uma vez...onde mesmo? Arregala os olhos, o flash o cega por um instante, os 15 segundos haviam passado. Sua mulher tinha esse semblante, essa aura calma que a envolvia. Tinha essa expressão quando estava grávida...dela.

A expressão de surpresa fica eternizada no retrato de família, Natal de 2003. Ele olha da esposa para a filha, o olhar cúmplice trocado pelas duas entrega o segredo dividido por elas; mais uma vez, ele coadjuva nesse triângulo. Mas, no fundo, ele sabe; ele sempre soube de tudo e sempre esteve lá. Ela pisca para ele com mesma curiosidade de quando o viu revelar as fotos no laboratório pela primeira vez; aqueles grandes olhos cheios de amor, que admiram o silêncio tão necessário entre eles. Ele sabe que ela sabe que ele sempre esteve lá e isso se basta.

QUE TAL MAIS UM?

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