E nem se fosse um mar de rosas.
Nem se fossem plumas, nem louros.
Ainda se fossem pessoas, pensamentos.
Mas são antíteses e crases.
Estão ao contrário, estão às avessas.
São ambiguidade e não entendem se bem e se mal.
São linhas tênues sinuosas
que descem a serra sem freio.
Estão em neblina densa
e continuam a cair.
Matando o tempo para o tempo não me matar.
Pra não pular no breu entre os minutos que param para eu passar.
Então vai, tempo.
Dê-me tempo de pensar.
E a mão invisível que me guia entre os segundos,
entre os primeiros e terceiros.
Guiando cegamente sem cão-guia.
Sem segunda via ou certidão.
A metrópole me engole num surto megalomaníaco.
Queria tempo para sobrecarregar-me da melancolia da incerteza diária. Para acordar e ver no que dá. Para acordar com o destino volúvel e impreciso de dias de chuva. De minutos de silêncio, de tempo e de timbre. De massa, anteposta ao portal que se fecha sobre minhas costas, viro e me deparo com quatorze por metro quadrado, eu inspiro. Ele se move, eu expiro. O expresso de metal frio que espreme a todos nós, me leva garganta abaixo da metrópole atrasada, eu suo.
Aquele tempo que clamava por ter, se vai, nos minutos contínuos em que paramos todos juntos, emaranhados uns aos outros na escuridão da laringe da cidade, enquanto observamos o atraso nos alcançar e não aprendemos nunca. Todo dia o mesmo horário, o mesmo sofrimento.
A tal metrópole nos fez refém dessa relação sado-masoquista entre o capital e o alívio. Continuamos a nos debater porque a sensação de alívio quando paramos é incontestávelmente boa.
E por horas nos escoramos no ponto, esperando o relógio maldito bater seu próprio horário e nos torturar no caminho de volta, lotado. De novo.
Perdoai senhor, esses trabalhadores não sabem o que dizem. São crias de uma era, de uma história escrita por um analfabeto, que quis nos fazer de idiotas e fingiu rabiscar num papel de pão. Damos, então, vida ao nada. À ilusão que permeia nossa existência. Salgamos carne podre pois a inflação é perigosa. Damos murro em ponta de faca porque nos convenceram que o Senhor vai nos salvar. E quem nos explica o contrário? Não há. Eu podia matar, roubar, senhor, mas tudo o que peço é sua carteira emprestada, sem devolução programada. E se me permite, levarei este aparelho eletrônico falante que carrega com você. Amém.
Debruçou sobre a janela para sentir o vento que vinha do final da rua, perto do 378, perto da cerejeira carregada que fazia jus ao nome de sua rua ladrilhada. Sentia o sopro chacoalhar-lhe os cabelos do segundo andar de sua casa assobradada, de fachada lilás e portas e janelas brancas.
Olhou de volta para as malas prontas, postas ao pé da porta que dava para o closet. Olhou de novo para o pé da porta esperando que se mexesse. E não viu nada.
Pausou o Blind Pilot que tocava em seu dock sobre o criado-mudo. Pausou o vento fechando as janelas. Lá vamos nós.
Seu conjunto de malas carregando esperança de um novo olhar. O closet vazio, nem sua velha escova de dentes vermelha pousava mais sobre a cantoneira do banheiro de pastilhas. Seus quadros de influências e costumes jaziam em caixas etiquetadas cuidadosamente. Seus discos perdidos entre os dvds e seus livros já haviam partido junto das roupas e produtos de limpeza. Seu tapete enrolado, atrás da porta. E seus sapatos ocupavam quase metade do carreto.
Um suspiro lhe escapou os lábios e pareceu-lhe profundo demais. Um suspiro e nada mais. Talvez fosse cansaço, talvez já fosse saudade da solterice que nem havia se livrado ainda.
E agora, por uma vida a dois ela se encaminhava. Por um casamento simples, regado a folk music. Seu futuro marido tinha um gosto apurado no que se tratava da trilha sonora e eles combinavam como Mumford & Sons e banjo, como Noah & The Whale e vinho, como The Tallest Man On Earth e um bom jantar a dois.
Havia escolhido se acalmar, escolher um sofá a dois ao invés de duas poltronas. Havia escolhido ser a esposa de alguém ao invés de ser a mulher do mundo. Poderiam, juntos- e eles se prometeram- serem cidadãos do mundo, serem o casal do mundo, das estradas e aeroportos. Ou simplesmente o casal casado dos cinemas aos domingos a tarde.
E que assim fosse. Vestido, sapato, banda, altar, convidados e bolo. Tudo acertado, tudo perfeito.
A buzina soou novamente. Nada restara de sua juventude solitária, enfim. Como havia desejado, o próximo passo acontecia.
Tomou em suas mãos suas últimas malas, com seus últimos pertences. Desceu as escadas pela última vez. Girou as trancas da porta da frente pela última vez e pela última vez vislumbrou a cerejeira ao lado do 378. Acenou para o vizinho do 203 e entrou no carro. Que acabassem, enfim, seus dias de solidão.

